Quando aterra no Porto com umas horas pela frente, a minha primeira decisão não tem a ver com o café nem com as compras: olho para o relógio e calculo quanto tempo real tenho até ter de voltar a passar os controlos. O aeroporto sa carneiro é suficientemente fácil de percorrer para não sentir que cada deslocação pelo terminal consome meia escala, e isso permite delinear duas estratégias muito distintas: ficar no interior, descansar e comer algo com calma, ou aproveitar uma escala longa para ir até ao Porto e regressar antes do voo seguinte.
Se disponho de menos de três horas, não complico. Prefiro ficar no terminal e procurar uma zona um pouco afastada das portas com mais movimento. Nos aeroportos tenho o costume de caminhar uns minutos antes de me sentar, porque muitas vezes as primeiras zonas que encontro estão cheias simplesmente porque ninguém continua a avançar. Quando localizo um assento confortável e uma tomada de corrente, deixo resolvida a parte prática: telemóvel a carregar, cartão de embarque localizado e hora de embarque controlada. A partir daí sim, posso tomar um café, rever trabalho ou simplesmente desligar.
Com uma escala de quatro, cinco ou mais horas, a situação muda. O Porto está suficientemente perto para transformar uma espera longa num pequeno passeio urbano, embora nunca calcule o tempo apenas a partir da duração teórica do trajeto. O metro é uma das minhas opções favoritas porque evita depender do trânsito e liga o aeroporto à cidade de forma simples. Se tenho a margem à justa ou viajo com várias pessoas, comparo também o custo de um táxi ou de um serviço semelhante, porque a poupança de tempo e o conforto podem compensar a diferença de preço.
Quando decido sair, costumo definir uma hora limite de regresso mesmo antes de abandonar o terminal. Não tento conhecer o Porto inteiro. Prefiro chegar à zona central, caminhar um pouco, tomar alguma coisa e voltar. Numa escala, o verdadeiro luxo não consiste em acumular monumentos, mas sim em poder estar meia hora sentado em frente a um café sem olhar para o relógio a cada vinte segundos. A estação de São Bento, os arredores da Avenida dos Aliados ou a zona próxima do centro histórico podem dar-me essa sensação de ter pisado a cidade sem transformar a ligação aérea numa corrida.
Se fico no aeroporto, as salas VIP fazem sentido sobretudo quando a escala é longa ou preciso de trabalhar. Pessoalmente, valorizo menos a componente exclusiva do que a possibilidade de dispor de um assento tranquilo, ficha, ligação estável e algo para comer ou beber sem estar a fazer pequenas compras durante toda a espera. Antes de pagar o acesso, verifico se o meu cartão bancário, programa de passageiro frequente ou bilhete inclui alguma vantagem, porque é um desses serviços que muita gente paga sem se dar conta de que já o tem parcialmente coberto.
Outra parte que costumo deixar para o fim são as compras. Não gosto de entrar nas lojas logo ao chegar porque acabo por carregar durante horas coisas que poderia ter adquirido quinze minutos antes de embarcar. Se quero levar uma recordação de Portugal, prefiro produtos gastronómicos que realmente possa consumir ou oferecer: conservas, doces, chocolates, pequenos formatos de azeite, produtos relacionados com o vinho ou artigos tradicionais que não ocupem metade da bagagem. Antes de comprar qualquer líquido, revejo sempre as condições do meu voo seguinte, especialmente quando ainda tenho ligações posteriores.
Também presto bastante atenção a onde como. Numa escala curta procuro rapidez; numa longa tento transformar a refeição em parte do descanso. Não preciso de me sentar no estabelecimento mais sofisticado do terminal. Basta-me encontrar um local um pouco afastado dos percursos principais de passageiros, pedir algo simples e sentar-me de forma a conseguir controlar os meus pertences sem estar continuamente preocupado com eles. Viajar torna-se bastante menos cansativo quando deixo de tratar cada minuto como uma emergência.
Quando levo portátil, utilizo o tempo de espera de outra forma. Procuro primeiro um espaço confortável, resolvo uma tarefa concreta e fecho o computador. Cometi demasiadas vezes o erro de pensar que uma escala de três horas equivale a três horas produtivas. Entre desembarcar, localizar a porta seguinte, comer, deslocar-se e voltar a passar controlos quando devido, o tempo útil é sempre menor. Prefiro completar quarenta minutos bons de trabalho e desfrutar do resto a passar duas horas a mudar de assento enquanto tento concentrar-me.
O regresso até à porta de embarque faço-o com margem generosa. Embora conheça o aeroporto, não dou por garantido que a porta estará perto nem que o controlo terá pouca fila. Procuro estar de novo na zona de embarque com tempo suficiente para não transformar uma escala agradável num sprint final. Se ainda me sobram vinte minutos, é aí que compro um último detalhe português, tomo outro café ou simplesmente me sento perto da porta enquanto vejo como começa a formar-se a fila sem sentir qualquer necessidade de ser o primeiro a levantar-me.